top of page

Rondélio do Poty: Prato da Boa Lembrança 2026, quando a Cantina do Délio transforma massa fresca e memória afetiva.

12 de ago.
4 min de leitura
Foto: Léo Antunes
Foto: Léo Antunes

Há histórias que cabem em um prato. Não como metáfora vazia, mas como projeto: uma receita pensada para carregar, ao mesmo tempo, técnica, afeto e um pedaço da cidade onde nasceu. É o caso do Rondélio do Poty, a criação que a Cantina do Délio apresenta como seu Prato da Boa Lembrança 2026 — e que só faz sentido completo quando se conhece o trocadilho por trás do nome, a figura que ele homenageia e o ritual que o acompanha.

Antes de qualquer descrição de ingredientes, vale entender o gesto: um restaurante italiano de Curitiba decidiu costurar, num único prato, a tradição da cozinha da nona e a obra de um dos artistas mais importantes da história do Paraná. O resultado não é apenas mais um item de cardápio sazonal. É a versão mais recente de uma tradição que a Cantina do Délio já vem construindo há alguns anos dentro da Associação dos Restaurantes da Boa Lembrança.

O Rondélio do Poty

Foto: César Canabrava
Foto: César Canabrava

O nome já entrega parte da brincadeira: rondeli, a massa recheada e enrolada típica da cozinha italiana, vira "Rondélio" — um aceno sonoro a Poty Lazzarotto, mas também, indiretamente, ao próprio Délio Canabrava, fundador da casa. É um jogo de palavras que só uma cantina com quase duas décadas de intimidade com massas artesanais teria coragem de propor.

Na prática, o prato nasce de aproximadamente dois metros de massa fresca, preparada artesanalmente e recheada com ricota cremosa e espinafre refogado. Essa faixa de massa é enrolada e cortada em porções generosas de rondeli, levadas ao forno sob dois molhos diferentes: de um lado, molho de tomate fresco; do outro, bechamel encorpado. As duas metades convivem no mesmo prato, gratinadas juntas, criando um contraste de sabor e visual que resume bem o espírito da casa — a mesma massa, servida de duas formas, para quem não quer escolher entre acidez e cremosidade.

É um prato pensado para ser dividido, discutido, fotografado antes de ser cortado. E, como em qualquer boa cantina, generoso o suficiente para lembrar que ali a fartura ainda é tratada como parte do afeto, não como excesso.


Por que Poty?

Foto: Léo Antunes
Foto: Léo Antunes

Napoleon Potyguara Lazzarotto — o Poty — nasceu em Curitiba em 1924 e morreu na mesma cidade em 1998, depois de uma carreira que atravessou desenho, gravura, ilustração e, sobretudo, os grandes painéis que hoje fazem parte da paisagem urbana curitibana. Ilustrou obras de nomes como Guimarães Rosa e José de Alencar, viveu entre Curitiba, Rio de Janeiro e Paris, mas é em sua cidade natal que sua presença se tornou quase arquitetônica: murais, painéis públicos e referências que qualquer curitibano reconhece, mesmo sem saber o nome do autor.

Escolher Poty para nomear o prato da Boa Lembrança 2026 não é um gesto aleatório de marketing cultural. É uma tentativa de fazer o que ele fazia com suas obras: pegar algo do cotidiano da cidade e transformar em símbolo. A Cantina do Délio, que desde 2007 ocupa a mesma casa de madeira no Alto da XV, entende-se como parte dessa paisagem afetiva de Curitiba — e encontrou em Poty uma maneira de dizer isso sem discurso institucional, só com um trocadilho e um prato bem-feito.

Quando a gastronomia vira memória

A ideia de que uma refeição possa ser levada para casa em forma de objeto não é nova, mas continua sendo rara. A Associação dos Restaurantes da Boa Lembrança nasceu em 1994, em Petrópolis (RJ), inspirada num modelo italiano dos anos 1960 conhecido como Unione Ristoranti del Buon Ricordo. Desde então, cada restaurante associado — hoje espalhados por várias regiões do Brasil — desenvolve anualmente um prato exclusivo, servido junto a uma cerâmica pintada especialmente para aquela criação.

A lógica é simples e, por isso mesmo, difícil de imitar: o cliente vive a experiência à mesa, mas não sai de lá com apenas uma lembrança na memória — sai também com uma peça física, que pode ser exibida, colecionada, comparada com as de outros anos e outras casas. Não à toa, muita gente monta verdadeiras coleções de cerâmicas da Boa Lembrança, uma espécie de diário de restaurantes visitados ao longo dos anos.

No caso do Rondélio do Poty, essa cerâmica ganha uma camada extra de significado: sua ilustração é inspirada na obra do próprio Poty Lazzarotto. Ou seja, quem pede o prato não leva para casa apenas o registro de uma refeição na Cantina do Délio, mas também uma pequena peça que dialoga com a história cultural de Curitiba. A comida termina no prato; a lembrança, não.

Itália e Curitiba no mesmo prato

Se há um fio que conecta os últimos vinte anos da Cantina do Délio, é a insistência em tratar a massa fresca como um ofício, não como um item de cardápio qualquer. Délio Canabrava passou um mês percorrendo cantinas do norte ao sul da Itália antes de abrir a casa, e essa experiência ainda aparece no cuidado com que a massa é feita — inclusive na fita de dois metros que dá origem ao Rondélio do Poty.

O que o prato da Boa Lembrança 2026 propõe é uma equação pouco óbvia: Itália, Curitiba e memória, dividindo o mesmo espaço. A Itália está na técnica, no rondeli, no bechamel, no molho de tomate fresco preparado como em qualquer cantina que se preze. Curitiba está no nome, no trocadilho, na homenagem a um artista que ajudou a desenhar literalmente os muros da cidade. E a memória está em dois lugares ao mesmo tempo — na mesa, enquanto o prato é servido quente e gratinado, e na estante de casa, onde a cerâmica vai continuar contando essa história depois que a refeição terminar.

É uma síntese que só faz sentido para quem entende que cozinha italiana em Curitiba nunca foi sobre reproduzir a Itália, mas sobre traduzi-la para uma cidade específica, com suas próprias referências.

Serviço

Rondélio do Poty — Prato da Boa Lembrança 2026

Valor: R$ 160

Unidade Itupava: Rua Itupava, 1094 – Alto da XV

Unidade Batel: Rua Teixeira Coelho, 255 – Batel

Funcionamento (sujeito a alterações em feriados e datas comemorativas): almoço de segunda a sexta das 11h às 15h, sábados e domingos das 11h às 16h; jantar de segunda a sábado das 18h às 23h. Recomenda-se confirmar horários e disponibilidade do prato diretamente com a unidade escolhida antes da visita.



 
 
 

Comentários


Cantina do Délio - Alto da XV, Rua Itupava 1094

Cantina do Délio - Batel, Rua Teixeira Coelho, 255

bottom of page